Poesias

Blog EntryARQUEOLOGIA DOS PRAZERESAug 11, '07 3:11 PM
for everyone
Prezados amigos,
convido-os para o lançamento de meu Livro "Arqueologia dos Prazeres"
dia 16/08 no Rio de Janeiro, Livraria da Travessa Ipanema, 19h30
dia 24/08 em São Paulo, Casa do Saber, 19h
abraços,
Fernando Santoro



Blog EntryElegia para o dia seguinteNov 4, '05 9:25 AM
for everyone

ELEGIA PARA O DIA SEGUINTE

(por graça de APOLO concedida)

 

 

 

I — PRECE

 

Frecheiro infalível, teu arco multialvejante

de setas tão rápidas, penetrantes, invisíveis,

insinuou a peste entre tantas naus.

Quem profanou vossos altares?

Ó cúmulo dos ímpios, que escravizam virgens

consagradas aos cultos radiosos da luz.

 

Obliquo deus, transfigurador das palavras em ações

A alma vibrando em nossa voz: salve!

 

Luminoso, provedor de palavras poderosas

A Musas que encantam, sereias sedutoras,

A Pítias que encobrem e revelam além

Outra vez a saga há de singrar nossos peitos

Em flecha por vós desferida, os heróis vão nascer

Novamente e novamente combater e morrer.

 

Obliquo deus, transfigurador das palavras em ações,

O coração vibrando em nossa voz, força!

 

Soberano, guiando-nos para entrar e sair,

vivos, saudáveis e belos na contenda;

voltamos a pisar em areias brancas

depois de uma noite de urros e calafrios,

curados com drogas de vossas artes

da peste que ainda exala ares fanados.

 

Obliquo deus, transfigurador das palavras em ações

A alma vibrando em nossa voz, salve!

 

 

Brilhante, entre rochedos e vagas mortíferas

Com poder ofuscante, fizestes os olhos cerrados,

Mas abriste-nos as vias invisíveis,

Teu poder sedutor, preencheu toda a escuta

E um canto silente nos faz seguir

O fio tênue que encaminha as estrelas

 

Obliquo deus, transfigurador das palavras em ações

Com a alma vibrando em nossa voz, agradecemos

 

 

 

JORNADA

 

 

II – A Madrugada

 

Junto com a aurora,

entoamos dez vezes o canto e silenciamos,

de sobre o convés, olhos para o horizonte.

O capitão proferiu austeras palavras de exortação

e seguimos para os postos:

no mastro, ao leme, no manejo das cordas

cada um na competência de seu afazer,

cada um refletindo sobre si

as memórias corridas e as expectativas do amanhã...

 

 

III – O Meio-Dia

 

O Sol ardeu,

as sombras das velas se encurtaram.

Suor e maresia salgaram nossos corpos.

Um horizonte límpido cercava por completo a embarcação.

De alegria ou loucura, por nada,

o timoneiro ressoou uma cortante gargalhada.

Todas as atenções voltaram-se sobre ele

neste instante, ganhou toda a amplidão do mar.

Secundaram-no — um primeiro e outro e outros

em risos cúmplices gratuitos.

Nossas faces ganharam asas

e mergulharam como crianças na espuma das ondas.

 

 

 

 

IV – A Tarde

 

O mar alastra seus infinitos mistérios,

em todas as direções abre sua superfície viva.

Seu ânimo imprevisto estende uma estrada para nossa jornada,

nossas vãs agitações na deriva da história.

O mar. O mar.

Não cansaremos de repetir o instante único do convívio.

Não cansaremos de temer e venerar

o balançar rumo ao que não se ,

rumo ao que não se sabe, rumo ao que ainda não é.

 

 

V – O Ocaso

 

O Sol baixa a olhos vistos no horizonte.

As cores desfilando no poente anunciam os segredos da Noite

sorrateira, ela infiltra-se por trás de nós.

Quando a percebemos — tarde

diz-nos ao ouvido que o coração da jornada serenou.

Segreda-nos o sono escuro

e o lodo viscoso do esquecimento.

O que passou

naufrágio de outra barca do Sol

dissolve-se irremediavelmente no horizonte.

O que passou

passou.

 

 


LULA CORROMPEU PAPAI NOEL
 
A reportagem de veja a revista do autista, entrevistou uma ex-rena do Papai Noel que confirmou as causas do apagão do final do governo de FHC:
"- Aquilo foi coisa do Dirceu para quem os fins justificam os meios eleitoreiros. Convenceu Papai Noel que com mais noites sem energia, a entrega de presentes iria render horas extras repassadas para o Caixa 2 do PT de Boa Vista no oeste de Mato Grosso do Sul"
Num furo investigativo, nossos repórteres captaram a conversa telegráfica entre o líder polonês Lessa Wallesa e o então candidato Lula. Como é sabido, Wallesa contou com o caixa 2 do Papa, e instruiu seu colega sindicalista do ocidente.
"- Eu bem que desconfiava da barba daquele duende de voz grossa". - declarou a ex-rena inconformada, com a corrupção petista no Polo Norte, onde garante haver indícios de infiltração do Ministro Palloci e da namorada da empregada do secretário do filho do irmão do deputado Dirceu.
Leia também: "- Eu bem que desconfiei daquele saco vermelho. Mas quando olhei pra trás vi que a coisa estava preta. País subdesenvolvido dá nisso: entrou pela chaminé, sai preto." - Diogo Maisnardi (o colunista funerário mais lido do Brasil).
 
não perca tudo isso e mais, na sua próxima
veja a revista do autista
 
Atenção: O autismo é um fenômeno patológico caracterizado pelo desligamento da realidade exterior e criação mental de um mundo autônomo. Respeitamos os autistas como respeitamos qualquer ser humano, inclusive os leitores de veja, a revista do autista sem qualquer conotação pejorativa.
 
Raul Longo
pousopoesia@ig.com.br www.sambaqui.com.br/pousodapoesia
Ponta do Sambaqui, 2886
88.051-001 - Floripa/SC
Fone: (48) 335-0047 -Skype: raullongo

Blog EntryPara pensar o Brasil depois do REFERENDOOct 22, '05 9:35 PM
for everyone

Segue abaixo a mensagem de um amigo:

Prezados amigos, conhecidos e outros membros do meu "catálogo de endereços". Tomo a liberdade de difundir três textos de avaliação da campanha do referendo. Dois me chegaram nos últimos dias e foram escritos por cientistas políticos. Não são textos de propaganda. O terceiro é meu - e surgiu como um desabafo em uma lista de amigos bastante próximos.

TEXTO 1: ADEUS À DEMOCRACIA

Ganhe o SIM ou o NÃO, a democracia perde ou ganha? Ganha porque o povo brasileiro decide; perde porque decide de acordo com os marqueteiros. Quando se discutiu o horário gratuito, o ideal era nobre: limitar a influência do poder econômico, dar uma chance a quem não tinha dinheiro de defender suas idéias diante do grande público. Seria um momento para confronto de dados, resultados de pesquisas, idéias, argumentos, com benefício para o público. Um refinamento da cultura cívica. Não se previu que as campanhas se tornariam batalhas entre imagens e não entre propostas e seus alicerces factuais e ideológicos.

Sim, o marqueteiro do NÃO é bom. Elegeu, imaginem, Fernando Collor. E talvez convença a maioria do público brasileiro (já convenceu uma parte grande) de que aumentando as armas de fogo, aumentará a segurança e diminuirão as mortes violentas. Os dados mostram o contrário.

Como é possível?

Numa sociedade de telespectadores, a mídia, e a TV em particular, tem função muito importante. Porém, o tempo disponível é muito curto para expressar uma idéia complexa. A palavra perde importância, sendo reduzida a frases de efeito. Talvez o encurtamento das cenas no quotidiano da TV reduza a nossa atenção e nos impeça, por um cansaço induzido, de apreciar monólogos e diálogos mais longos, argumentos mais complexos – na TV e na vida também. Vivemos, cada vez mais, num mundo rápido, de tiradas e de mentirinha onde, pasmem!, acabaram os cômicos, aqueles que fazem rir com suas palhaçadas. Êles foram substituídos por risos gravados no estúdio, de mentirinha, manipulados à vontade pelos editores dos programas. O seriado cômico de maior sucesso nos Estados Unidos, Friends (Amigos) durou uma década. É assim.

Robert Putnam, critica o isolamento social: que mais americanos assistem Amigos do que têm amigos. Em Bowling Alone, Putnam critica o fim da sociedade participativa e dá números: declínio de um terço no comparecimento a reuniões públicas e no número de sindicalizados; queda, pela metade, na participação em partidos; o tempo passado com amigos caiu 35% e assim por diante. A sociedade associativa, participante, com fortes governos locais, descrita por Tocqueville, foi substituída pela sociedade do divã em frente à televisão.

Porém, há uma competidora da televisão que, ainda nanica hoje, cresce rapidamente e promete ser gigante amanhã: a internet. A internet, como a televisão, pode ser um grande instrumento de desenvolvimento político, de democratização do conhecimento. Está levando o conhecimento contido em bibliotecas que eram privilégio do Primeiro Mundo ao Terceiro Mundo, a despeito da caríssima intermediação de empresas que nos vendem o que nós publicamos. A internet me permite (e a muitos outros) dar aulas a estudantes ginasianos espalhados pelo Brasil; permite, também, o furto de identidades, pedofilia, fraudes, divulgação de técnicas de construção de bombas e minas etc. O referendo produziu uma feroz campanha quase unilateral pela internet onde se divulgaram alguns fatos, algumas idéias e, infelizmente, um gigantesco besteirol - no qual muitos acreditam. Por esse meio, o NÃO mobilizou muito mais gente do que o SIM.

Afinal, o NÃO mobilizou quem gosta de armas, e sabe disso, quem tem medo, e sabe disso. Os maiores interessados na vitória do SIM são as futuras vítimas das armas de fogo, os que morrerão e os que serão feridos, muitos dos quais, ironicamente, estão defendendo o NÃO. Mas êles não sabem que vão morrer e que vão ser feridos. Os maiores defensores do SIM morreram e não votam mais.

Podemos calcular, dentro de margens probabilísticas seguras, quantos vão morrer. Não é mistério, já o fiz muitas vezes e qualquer um pode fazê-lo. Mas, como transformar uma probabilidade em um sentimento? Pesquisas, ciência e conhecimento não conseguem. Números não criam identidades.

Mas imagens e emoções como o medo, criam. Estereótipos criam. A imagem do criminoso gerada pelo NÃO junta todos os preconceitos num clip de vinte segundos. Um homem, escuro (claro!!!), com brincos, cabelo pixaim (mas só um pouquinho para que o racismo não seja óbvio), de origem pobre, dentes estragados, mas tratados a ouro, com um sorriso perverso. Do outro lado, defendendo o NÃO, um jovem, branquíssimo (claro!!!), alourado, musculoso, parecendo ingênuo e sincero, de classe média. Em vinte segundos, o marqueteiro do NÃO condensou os preconceitos raciais e sociais mais poderosos da sociedade brasileira. E ganhou votos.

Num mundo movido a imagens, a verdade está perdendo o sentido. Se coloca o que ganha voto, falso ou verdadeiro. As campanhas eleitorais "vendem" imagens. Emplacaram Collor e os anões do orçamento, assim como os corruptos da vez e outros que estão escondidinhos. Há décadas suspeitávamos de Maluf, que se elegeu prefeito e foi candidato a presidente e a governador, recebendo milhões de votos. O jogo de imagens zerou a correlação entre a pessoa real e a persona política. A imagem pode ser a antítese da realidade.

Em 1948, George Orwell publicou 1984. Cinco anos depois, Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451. Eram, na época, livros de ciência ficção, preocupados com a lavagem cerebral feita por governos totalitários, dominando a leitura e reescrevendo a história, num, e queimando livros e concentrando a comunicação na televisão, noutro.

No Brasil, pouco mais de meio século depois, em parte, a ficção virou realidade. Politicamente, estamos longe, muito longe – felizmente – de uma ditadura.

Somos uma democracia de imagens.

Gláucio Ary Dillon Soares

IUPERJ

TEXTO 2: CARTA DO FERNANDO WELTMAN

Caros(as) colegas e amigos(as),

Resumo aqui, para seu deleite – ou irritação – nove teses com relação ao referendo. A essa altura do campeonato, pretendo com elas menos influenciar o voto do que levantar certas questões, talvez ainda não devidamente interpeladas:

1 – A opção pelo referendo foi o resultado de uma negociação política : impressiona-me o modo arrogante como se critica o referendo, como se ele fosse resultado de uma deliberação isolada (de algum gênio, ou energúmeno). Ainda há quem não entenda que a maioria das decisões relevantes numa democracia é resultado da interação ou agregação, freqüentemente imprevisível, das ações parciais de vários (ou inúmeros) indivíduos.

2 – O referendo não é uma "cortina de fumaça" para abafar a crise do "mensalão ": esse é um argumento tão indigente que nem mereceria referência. Lembro apenas que a decisão sobre a consulta foi tomada com mais de um ano de antecedência. Muito antes, portanto, do estouro da atual crise política.

3 – O referendo é sobre venda de armas e não um plebiscito de julgamento do Governo Lula : confundir uma coisa com a outra só pode interessar a dois grupos (que às vezes se fundem num só): os que defendem o "não" e querem pegar carona na suposta perda de sustentação popular do Governo – favorável ao "sim" –, por conta da tal da crise, ou os que pretendem pegar carona na suposta onda vitoriosa do "não" para infligir uma derrota ao Governo, de olho em 2006. São estratégias tão arriscadas quanto válidas (de acordo com o maquiavelismo chinfrim há séculos cultivado por alguns no Brasil). Nem por isso deve o cidadão deixar que desviem sua atenção do foco que interessa: os possíveis impactos da proibição ou não da venda de armas.

4 – A proibição pode diminuir o número de vítimas de acidentes e de conflitos pessoais : este argumento dos defensores do "sim" me parece bem razoável, embora também se reconheça que esta provavelmente é apenas uma das faces da nossa violência, hoje. De qualquer modo, piorar as coisas, neste aspecto, o voto "sim" não vai.

5 – A proibição pode incentivar bandidos a atacar cidadãos desarmados : é forçoso reconhecer que este argumento do "não" também soa plausível. Há que se notar, porém, que bandidos mais perigosos têm acesso a armas que nenhum cidadão pode ter – e que, portanto, as atuais "milícias do bem" já se encontram em franca desvantagem –, e que, ao contrário, a proibição pode justamente ajudar a coibir o chamado bandido de ocasião.

6 - A proibição pode incentivar ainda mais o contrabando de armas : de um ponto de vista exclusivamente econômico, este argumento do "não" parece mesmo irrefutável. Mas a se levar tal lógica às últimas conseqüências, acabaríamos concluindo que é melhor não proibir rigorosamente nada em sociedade, pois que qualquer proibição sempre incentiva a transgressão.

7 – Portar arma não é um "direito natural" : seja o que for que os juristas pseudo-liberais do "não" entendem por "direito natural", a posse de uma arma e a eventual competência – ou sorte – em saber manipulá-la, não constituem o exercício de direito algum. Trata-se apenas do uso de recursos materiais – de força, destreza, conhecimento do terreno, etc. – no plano da pura física. Só se pode falar em "direito" quando existe alguma instância superior a nós, indivíduos, que define a todos o que podem ou não fazer, o que podem ou não chamar de "seu", e em que condições. Instância a que também podemos recorrer, para fazer valer nossos direitos individuais positivos, ou seja, definidos por Lei. Sejam estes os de andar de carro sem ser abalroado por outro que se julgou no "direito" de avançar o sinal, ou ultrapassar o limite de velocidade; ou de dormir em paz sem ter o sono perturbado pelo ruído do vizinho; ou de não ter a integridade física ou moral violada pelo primeiro indivíduo excessivamente armado – física e espiritualmente – em qualquer espaço Público!

8 – O que está em questão com o referendo, portanto, é o "Estado de Direito" no Brasil : defender, hoje, o "direito" ao porte de armas e à suposta autodefesa do cidadão, equivale – nessa chave inconseqüente de supostos "direitos naturais" – a defender também o direito a fazer justiça com as próprias mãos: já que se o Estado é, segundo tais "libertários", intrinsecamente incompetente para nos garantir a segurança, como poderá também nos fazer justiça?

De fato, não espanta que o "não" se propague em setores da população mais ciosos de seus "direitos". Tão ciosos que estão sempre dispostos a gastar não só com armas, mas também com carros blindados, vigilância particular, ruas com cancelas ou porteiras, etc. Mas será que estes cidadãos tão bem informados – e muitas vezes bem intencionados – têm clareza de que votando "não" estão dizendo "sim" à institucionalização do faroeste?

9 - O referendo tem dimensões políticas que vão além do seu objeto : é preciso, finalmente, ter atenção ainda ao fato de que qualquer decisão política não envolve apenas o seu conteúdo específico – no caso, a proibição de se comprar e vender armas – mas também uma sinalização política: alguém vence e alguém perde. Votar "sim" ou "não" é mais do que decidir a questão: é dar poderoso apoio moral a contendores de um lado ou de outro.

Afinal, o referendo acaba domingo. Nossos velhos – velhíssimos – problemas com a segurança pública, não.

Grande abraço

Fernando Lattman-Weltman

Texto 3: "Quatro perguntas que quase me fazem calar"

1. VAMOS TESTEMUNHAR A DERROTA DE UMA GERAÇÃO?

Nunca tive dúvidas a respeito das dificuldades de convencer a maioria da população a votar contra o comércio de armas. A cultura das armas e o imaginário a ela associado é poderosíssimo. O cinema americano e a televisão ajudaram a difundir o mito do "mocinho" solitário defendendo seu rancho de legiões de índios selvagens, alemães, bandidos negros, comunistas russos, chineses ou vietnamitas e, agora, árabes. As manifestações pelo desarmamento sempre foram minoritárias. Começaram a ganhar alguma visibilidade, ainda em tom romântico, depois da primeira guerra mundial. Assumiram um caráter de movimento civil na luta contra a guerra do Vietnam, mas sua primeira vitória internacional, puxada por ongs de vários países foram os tratados para erradicação das minas terrestres (em particular as chamadas "anti-pessoais", cujo objetivo militar não era matar o inimigo mas aleijá-lo de modo a que se tornasse inútil para a batalha e um peso para as frágeis economias de países como Angola, por exemplo).

Perceber que estes valores que formaram parte da minha geração (tenho 47 anos) foram se diluindo, mesmo entre alguns dos meus mais amados companheiros de "viagem" (no duplo sentido da palavra), varridos pela nova Era do Medo que tomou conta da cultura contemporãnea, foi, de fato, minha única surpresa. As vacinas produzidas nos anos 60 e 70 perderam sua validade e as armas se banalizaram, se naturalizaram (seja nas mãos de meninos de 12 anos, nas favelas, ou na dos "esquadrões da morte" abrigados nos quartéis e delegacias do Brasil). O resultado desta banalização é que nos tornamos indiferentes aos lucros e interesses dos fabricantes de armas. São aceitos como parte da vida, das vicissitudes cotidianas e da estrutura social. A utopia (sim, a utopia) de uma sociedade desarmada teria perdido seu apelo junto com as outras todas (a sociedade igualitária e justa, a preservação do meio ambiente, etc.).

Não é por acaoso que a propaganda do NÃO concentrou sua retórica no SEU direito, na sua AUTO-DEFESA, etc. Os direitos sociais. coletivos, difusos, comunitários (paulatinamente construídos nos últimos dois séculos) estão fazendo água e o velho direito individual do século XVIII retorna em toda sua pujança e ressentimento (o velho ressentimento burguês contra o direito individual dos Reis - os reis absolutos, que, como sempre souberam exatamente do que se tratava, escreviam no corpo dos canhões "A Última Razão dos Reis".)

- Que nossa geração (isto é, os jovens que fomos) seja derrotada pela geração criada em shopping centers e condomínios na Barra, pelos pit boys e marombeiros, não me surpreende. Mas que ela tenha perdido para si mesma, que ela tenha se perdido de si mesma, no labirinto de sentimentos de seu próprio coração, isto sim me surpreende.